OS MECANISMOS ENUNCIATIVOS E O AGIR DOCENTE: UMA ANÁLISE DAS ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS


Geraldo Generoso Ferreira
Mestre em Linguística Aplicada pela UNITAU
Silvana Marchesani
  Universidade Federal de Viçosa
 Doutoranda em Letras – PUC Minas
Tatiane Chaves Ribeiro
Doutoranda em Letras – PUC Minas
Resumo
O presente trabalho objetiva analisar como o uso de modalizadores e vozes textuais podem construir sentidos e influenciar modos de pensar e de agir. Como corpus, temos um texto inicial de livro didático de Língua Portuguesa dirigido aos docentes que utilizarão tal material, Assim, partimos, como arcabouço teórico, do Interacionismo Sociodiscursivo, em interface com os estudos da Sociolinguísitca Interacional e da Análise do discurso da perspectiva francesa. Os resultados apontam para uma tentativa de orientação do agir docente organizado discursivamente por meio de modalizadores e vozes textuais. Nota-se, também, que esses modalizadores e vozes edificam um ethos discursivo das autoras frente a seus interlocutores.

Palavras-chave: Mecanismos enunciativos, Interacionismo sociodiscursivo, Ethos.

Abstract
This study aims to analyze how the use of modal and textual voices can construct meaning and influence on readers’ thinking and action. As corpus we have a Portuguese book guideline for teachers who use such material as a way to ground and justify the choices present in the educational and methodological work. Thus, we set as theoretical frame the Sociodiscursive Interactionism interfaced with Interactional sociolinguistics studies and Discourse analysis of French perspective. The results point to an attempt to guide the teachers’ actions by the discursive perspective which is organized through modal and textual voices.  These textual resources voices also designed the authors’ ethos toward their interlocutors.

Keywords: Enunciative Mechanisms, Sociodiscoursive Interacionism, Ethos

Introdução

A linguagem é constitutiva do sujeito e o possibilita viver em sociedade. Por meio de interações, os sujeitos constroem seus mundos, difundem ideias, trocam modos de pensar e de agir. Ao almejar difundir ideias e fazer com que elas sejam aceitas e seguidas, muitos sujeitos utilizam-se de estratégias argumentativas para construírem seus discursos.
Quando se tem por base a interação, podem-se levantar estratégias que, ao serem utilizadas, constroem sentidos e geram efeitos de cunho perlocutório. Daí, a necessidade de uma leitura linguístico-discursiva que faça emergir tais estratégias discursivas via modo de organização textual.
 Neste sentido, a abordagem e análise de textos a partir da perspectiva de folhado textual cunhado pelo Interacionismo Sociodiscursivo, ISD, permiti-nos explorar tais estratégias, observando como são produzidos os discursos frente a seus objetivos. Dito de outra forma, como os modos de organização textual podem levar os sujeitos pressupostos no ato de interação a agirem de determinada maneira. Assim, acreditamos que o estudo de modalizadores e vozes textuais, dentro da perspectiva do ISD, pode ser um instrumento para a análise de discursos diversos.
Dessa forma, o presente trabalho objetiva analisar como o uso de modalizadores e vozes textuais podem construir sentidos e influenciar modos de pensar e de agir. Como corpus, temos um texto inicial de livro didático de Língua Portuguesa dirigido aos docentes que utilizarão tal material, como forma de embasar e justificar as escolhas didáticas e metodológicas presentes na obra. Assim, partimos, como arcabouço teórico, do Interacionismo Sociodiscursivo, em interface com os estudos da Sociolinguísitca Interacional e da Análise do discurso da perspectiva francesa.

Interação e produção de sentido

Falar em interacionismo é remeter, em certa medida, às práticas sociais situadas que se estabelecem na promoção do desenvolvimento humano. Entretanto, tal postulado nem sempre foi concebido com esse enfoque. Apesar de estudiosos como Vygostky (1999), observarem o desenvolvimento humano a partir dessa perspectiva, na linguística, é só a partir da segunda metade do século 20 que pesquisadores vão se debruçar sobre tal temática, buscando avançar no debate entre internalismo x externalismo.
Contudo, a falta de rigor metodológico e as possibilidades múltiplas de enfoque teórico sobre a compreensão da ação humana levaram, na linguística, a um esvaziamento semântico do termo interacionismo, segundo Morato (2001). A autora ainda observa que epistemologicamente os estudos de base etnográficos e aqueles voltados ao ensino de línguas proporcionaram uma fecunda terminologia para a designação de interacionismo: interacionsimo discursivo, sociointeracionismo, interacionismo sociohistórico, interacionismo construtivista, interacionismo simbólico etc.
Não obstante a essa gama de termos suscitados pelos estudos interacionais, no campo da linguística, podemos, de certo modo, observar uma confluência ou um ponto de partida para esses enfoques que presumem o estabelecimento das práticas sociais a partir da linguagem.
Neste sentido, a ação humana e, consequentemente, o desenvolvimento humano nos mais diferentes aspectos: psicológicos, sociais, culturais, cognitivos, são produtos dessa inter(ação) que se estabelecem nas mais diferentes sociedades via linguagem.
Dessa forma, Morato ainda observa o importante duplo caráter assumido pela linguagem como estruturada e estruturante do conhecimento humano:

Entendida como atividade constitutiva do conhecimento humano, a linguagem não é apenas estruturada pelas circunstâncias e referencias do mundo social; é ao mesmo tempo estrututrante do nosso conhecimento e extensão simbólica de nossa ação sobre o mundo. Ou seja, podemos dizer da linguagem que ela é uma ação humana (ela predica, interpreta, representa, influencia, modifica, configura, contingencia, transforma etc.) na mesma proporção em que podemos dizer da ação humana que ela atua também sobre a linguagem. (MORATO, 2001, p.317)

O trecho acima nos leva a refletir sobre a função da linguagem nas ações humanas em que as mesmas só ganham significados a partir da interpretação e reconhecimento operados por práticas linguageiras construídas de forma coletiva.
Nessa perspectiva, a interação ganha uma dimensão também discursiva, uma vez que a produção de textos (oral ou escritos) emerge de um ato dialógico, na perspectiva baktiniana, e, consequentemente, interativo. Daí a importância de observarmos, dentre outros aspectos, os espaços (materiais ou simbólicos) de onde emergem tais textos e o lugar ocupado pelos sujeitos nesse espaço interativo. 
Assim, ao analisarmos um texto, devemos, sobretudo, observar as condições sociointerativas presentes na construção do mesmo as quais poderão servir como índice para uma interpretação que reconheça o caráter discursivo presente nesta prática social.

A perspectiva sociointeracionista e a infraestrutura textual
            Neste trabalho, abordaremos uma perspectiva sociointeracionista e tomaremos a língua como trabalho social, como interação verbal. Pensaremos o texto como uma materialidade linguística que constitui um todo organizado de sentidos. Para Bronckart (1999), o agir linguageiro é realizado através de textos. O texto representa uma unidade comunicativa e apresenta características que dependem da situação de interação no qual é produzido.
            De maneira geral, Bronckart define texto como uma unidade de produção de linguagem constituída pela determinação do modo de organização de conteúdo referencial; pela composição de frases articuladas umas às outras e pela relação de interdependência.
            Tal organização constitui-se pela infraestrutura geral do texto - plano mais geral do texto - tipos de discurso e modalidades de articulação; pelos mecanismos de textualização - a conexão (organizadores textuais) e a coesão (nominal e verbal) e pelos mecanismos enunciativos - vozes e modalizações. Essas três camadas superpostas serão definidas pelo referido autor como folhado textual. Bronckart, também, observa que os mecanismos de textualização contribuem para a produção da coerência textual e, ainda, que os mecanismos enunciativos contribuem para o estabelecimento da coerência pragmática, explicitando, assim, diferentes avaliações acerca do conteúdo temático e sobre a procedência das instâncias enunciativas e ao seu (ao) posicionamento frente ao que é enunciado.
            Dentre os mecanismos enunciativos (vozes e modalizações) abordados por Bronckart, as modalizações, meio pelo qual os falantes manifestam o modo como eles consideram os seus enunciados, serão o foco das análises, neste trabalho.
            As modalizações têm como finalidade “revelar” os diversos comentários (avaliações/julgamentos) a partir de qualquer voz enunciativa a respeito do conteúdo temático. Bronckart (1999), fundamentado nas classificações da Antiguidade Grega e na teoria dos três mundos de Habermas (1987) adota os seguintes tipos de funções modalizadoras: as lógicas, as deônticas, as apreciativas e as pragmáticas. As modalizações lógicas pertencem ao mundo objetivo e consistem em julgamentos sobre o valor de verdade de proposições enunciadas tratadas como certas, possíveis ou improváveis. Já as modalizações deônticas são constitutivas do mundo social, amparam-se em valores, opiniões e regras. As modalizações apreciativas são constituitvas do mundo subjetivo e procedentes da voz-fonte do julgamento. E as modalizações pragmáticas são constitutivas do conteúdo temático, ou seja, personagem, grupo ou instituição. Para autor:

as modalizações têm como finalidade geral traduzir, a partir de qualquer voz enunciativa, os diversos comentários ou avaliações formulados a respeito de alguns elementos do conteúdo temático. Enquanto os mecanismos de textualização, que marcam a progressão e a coerência temáticas, são fundamentalmente articulados à linearidade do texto, as modalizações por sua vez, são relativamente independentes dessa linearidade e dessa progressão (BRONCKART, 1999, p.330).

                        Assim, podemos analisar e descrever como as ações linguageiras se tornam constitutivas do social e como os agentes interagem uns com os outros. O agente-produtor decide sobre o conteúdo temático e sobre o modelo de gênero adequado à determinada situação, seleciona os tipos de discurso, assim como organiza os mecanismos de textualização.
                        Uma vez que, segundo Bronckart, os mecanismos enunciativos contribuem para o estabelecimento da coerência pragmática do texto, isto pressupõe a análise dos seguintes aspectos: a distribuição das vozes e a marcação das modalizações que, apesar de distintos, revertem para a responsabilização do que é enunciado.
No tópico seguinte, observamos, também, como os mecanismos enunciativos podem corroborar para a construção do ethos do enunciador do texto.

Ethos e mecanismos enunciativos
Em um processo interativo, pode haver trocas verbais nas quais um dos interlocutores objetiva influenciar os demais. Nesse segmento, faz-se importante a edificação, por parte do sujeito enunciador, de um ethos capaz de convencer o outro.
Para Amossy, “os antigos designavam pelo termo ethos a construção de uma imagem de si destinada a garantir o sucesso do empreendimento oratório” (AMOSSY, 2008, p.10). Amossy baseia-se em Aristóteles, ao trabalhar a questão do ethos, e compartilha com esse o pensamento de que o ethos é construído no e pelo discurso. Segundo a autora, o enunciador, em seu discurso, edifica de forma consciente ou não a imagem de si através de suas escolhas lexicais, valores que retoma, etc. Nesse mesmo caminho, Auchlin (2001) afirma que “apoiando-nos na posição de Aristóteles, o ethos possui duas características centrais, inalienáveis: i. ele é dialogal e reflexivo; e ii. ele é casualmente dependente do discurso, ou emergente em relação ao discurso” (AUCHLIN, 2001, p.211).
De acordo com Ducrot (1984), o autor de um enunciado, ao se expressar, põe em cena determinado número de personagens e a partir do confronto destes sujeitos é que será construído o sentido do enunciado. O autor faz, ainda, a distinção entre dois tipos de locutor: o locutor L e o locutor  λ. O primeiro é o ser do discurso, isto é, criado no e pelo discurso, já o segundo representa o ser do mundo, o ser de quem se fala. Nessa perspectiva, Ducrot defende que o ethos está ligado ao locutor L.
            Observando a distinção pontuada por Ducrot, Amossy salienta:

Analisar o locutor L no discurso consiste não em ver o que ele diz de si mesmo, mas em conhecer a aparência que lhe conferem as modalidades de sua fala. É nesse ponto preciso que Ducrot recorre à noção de ethos: o ethos está ligado a L, o locutor como tal: é como origem da enunciação que ele se vê investido de certos caracteres que, em contrapartida, tornam essa enunciação aceitável ou recusável (AMOSSY, 2008, p.15).

            A noção de ethos proposta por Ducrot é retomada por Maingueneau (2008). Para esse, “além da persuasão por argumentos, a noção de ethos permite, de fato, refletir sobre o processo mais geral da adesão de sujeitos a uma certa posição discursiva” (MAINGUENEAU, 2008, p.69). Em outras palavras, por meio de seu discurso, o sujeito enunciador revela qual sua posição em relação a determinado assunto/contexto e visa conquistar a adesão de seu(s) interlocutor(es) interferindo, assim, no pensar e agir deste. Nesse segmento, acredita-se que, no estudo aqui proposto, o ethos discursivo das autoras é, também, responsável por guiar ou não o agir docente a partir do texto proposto pelas autoras do livro didático.
Se o ethos convence pelo discurso, nota-se que, em razão das escolhas linguístico-discursivas e estilísticas efetuadas pelo sujeito enunciador, é nesse que o ethos se mostra. Ao se considerar tais escolhas, observa-se que o uso de mecanismos enunciativos (vozes e modalizadores) torna-se um importante recurso linguístico-textual utilizado por sujeitos para “fortalecerem” seus discursos e, consequentemente, contribuírem para a construção de um ethos positivo e respeitável alcançando, dessa forma, os efeitos de sentido desejados.
Por meio de modalizações, o enunciador demonstra sua posição de sujeito falante seja em relação aos demais sujeitos envolvidos ou ao seu próprio discurso. Em outros termos, o uso de modalizadores transmite a avaliação do enunciador acerca do que é exposto. Por outro lado, a fim de justificar a posição que ocupa ou defende, o sujeito enunciador pode se valer, também, de vozes textuais, as quais representam as instâncias responsáveis pelo que é dito e ratificam, dessa forma, o seu dizer, orientando seu destinatário a uma leitura e interpretação do texto, segundo a sua visão ideológica-discursiva.
 No presente trabalho, observando um texto educacional de apresentação de um livro didático, buscamos analisar como os mecanismos enunciativos compõem a organização textual e, ao mesmo tempo, constroem o ethos dos sujeitos enunciadores. Em seguida, passamos à análise e à discussão dos dados.

Análise e discussão dos dados
Ao analisarmos um texto seguimos, de certo modo, alguns padrões que nos oferecem índices para interpretação do que é enunciado. Bronckart (1999) propõe esse exercício a partir de um modelo de leitura e interpretação textual, a saber, o levantamento do contexto de produção e dos níveis organizacional, enunciativo e semântico. O autor ainda salienta que a análise desses aspectos não se configura de forma isolada e independente, pelo contrário, cada aspecto corrobora na interpretação que se faz de cada nível, clarificando e endossando o embasamento desses.
Assim, em nosso trabalho, procuramos seguir o modelo de análise proposto por Bronckart, nos atentando mais especificamente, ao nível enunciativo.
No que se refere ao contexto de produção, o texto em análise como já dissemos, trata de um texto inicial de um livro didático em que tal material é apresentado aos professores que, no caso, são os destinatários primários de tal texto. As autoras em questão são especialistas na área com titulação de doutorado e mais de 10 anos de docência. Essas especificações estão assinaladas na página anterior ao texto o que, a nosso ver, parece um recurso argumentativo que serve como uma credencial para as locutoras que neste contexto assumem um lugar na enunciação do suposto saber (cf. FOUCAULT, 1979), e consequentemente do suposto poder. É também a partir desse lugar que se dá a construção do ethos das autoras.
Quanto ao nível organizacional, observamos no texto a seguinte estruturação em termos do plano global.
Seções do texto
Conteúdos tematizados
Considerações iniciais
Apresentação do ensino de Língua Portuguesa e redação  na atualidade.
Linha pedagógica e procedimentos metodológicos
Apresentação do enfoque teórico e metodológico de embasamento das autoras.
Organização dos capítulos e seções do livro
Justificativa e apresentação dos capítulos e seções do livro e expectativas das autoras em relação ao material.
Os novos rumos do trabalho com Língua Portuguesa no ensino médio
Apresentação de documentos oficiais nos quais o documento se baseia e justificativa para a mudança teórico-metodológico do ensino de Língua Portuguesa.
Quadro 1- Plano Global do texto analisado

 Em nosso entendimento, a estrutura organizacional favorece a uma lógica argumentativa das autoras, uma vez que a intenção explícita de tal texto é fazer com que seus destinatários utilizem o material em sua prática docente. Contudo, é interessante observar que, em nenhuma das seções, as autoras se dirigem especificamente aos professores. Na visão de Ferreira (2011), esse recurso, comum em textos educacionais de caráter prescritivo, tem por finalidade atenuar tal caráter e, consequentemente, minimizar as resistências dos profissionais frente ao que é enunciado.

Modalizações, gerenciamento de vozes e ethos
No referido texto em análise, podemos observar, seguindo a linha argumentativa já mencionada, a utilização de diferentes vozes e de modalizações.
Na seção intitulada “Considerações iniciais”, observamos o uso predominante do discurso teórico que produz um efeito de objetividade em relação ao conteúdo temático. O sujeitos enunciadores buscam distanciar-se do objeto temático de forma que suas asserções sejam vistas como verdades incontestáveis ou pressupostas. Ao mesmo tempo, as vozes no trecho referido desdobram-se entre a de um especialista no assunto e a de um ‘vendedor”  de determinado produto:  

Quem quer que se ponha a refletir sobre a questão do trabalho com Língua Portuguesa, tanto no Ensino Fundamental como no Médio, constatará que a situação está ainda muito longe de ser a ideal (...).

(...) o material aqui apresentado pretende fornecer subsídios para que esses problemas possam ser enfrentados com tranqüilidade.

Como observado, na primeira parte, temos uma constatação efetuada pelas autoras, no que se refere ao ensino da Língua Portuguesa nos níveis fundamental e médio, como algo inadequado, ou seja, que precisa ser mudado. Ao final da seção, os enunciadores apresentam o material, pontuando como este pode auxiliar àqueles que dele fizerem uso na sua prática profissional. É interessante observar que além de apontar o material como adequado, temos ainda uma espécie de “promessa” de tranqüilidade frente aos possíveis problemas na prática docente.
 Na seção, Linha pedagógica e procedimentos metodológicos, temos uma fusão de vozes e modalizações:

 Acreditamos, com base em nossa experiência em sala de aula, que o estudo de Gramática não se pode limitar a uma apresentação sistemática dos conteúdos previstos nos programas do Ensino Médio. Por outro lado, sabemos que os alunos devem tomar conhecimento os alunos devem tomar conhecimento de tais conteúdos de forma a atribuir-lhes um significado prático.

No trecho acima autoras expressam, por meio de modalizações deônticas – utilizando a 3ª pessoa do plural “acreditamos e nós sabemos”- uma opinião, amparadas pelo mundo social, isto se torna um valor de verdade a ser seguido. Ao mesmo tempo, as autoras utilizam-se ainda da voz de professoras que demonstram conhecimento e experiência no agir docente. Dessa forma, conferem autoridade ao estabelecer “orientações” aos destinatários, no caso, os professores que utilizarão tal material. Todavia, quando mencionado, por exemplo, que os alunos devem tomar conhecimento, a voz percebida é oriunda de documentos oficiais como os PCN - documento de referência para os profissionais da educação.
Deve-se salientar também que é diferente o uso de primeira pessoa nos trechos citados acima e em passagens como “sabemos que os alunos devem tomar conhecimento de tais conteúdos de forma a atribuir-lhes um significado prático”, em que se percebe, pelo contexto, que o termo “sabemos” refere-se aos professores de Língua Portuguesa (LP) em geral. O emprego desse termo pode ser considerado uma estratégia, por parte dos sujeitos enunciadores, de aproximação com seus interlocutores, uma vez que, ao atribuírem um sentido amplo à palavra em questão, demonstram compartilhar, ao menos, um conhecimento/saber com os interlocutores, ao invés de apenas impor-lhes algo novo. Esse efeito de aproximação contribui, ainda, para uma imagem positiva dos enunciadores, já que deixam transparecer que seus interlocutores, também, sabem algo relevante para um bom desempenho de sua profissão. Essa “imagem positiva” está relacionada ao ethos que é construído ao longo do texto.
Em outro segmento, podemos observar a utilização de uma modalização lógica:

Assim, para que as aulas façam sentido tanto para alunos como para professores, é necessário que as discussões gramaticais tenham sempre por base um quadro teórico no âmbito do qual a linguagem seja entendida como uma atividade que modifica e constitui os interlocutores, e que é por eles constantemente modificada e manipulada.

 A estrutura oracional utilizada “é necessário” consiste em uma avaliação de um elemento que se refere ao conteúdo temático apoiado no mundo objetivo, ressaltando, assim, uma verdade, um valor posto socialmente e reforçado, mais uma vez, pela voz das próprias autoras que demonstram compartilhar desse valor social.
No trecho abaixo podemos perceber a emergência da voz dos documentos oficiais que prescrevem, em certa medida, como deve ser o ensino e  a aprendizagem em sala de aula:

Somente estudando-se a linguagem em relação ao uso efetivo que dela fazem os falantes, podem adquirir sentido as discussões sobre a língua, em todos os níveis de análise, e a metalinguagem necessária para a condução dessas discussões.

 No excerto acima, o uso do discurso teórico  reforça o caráter argumentativo do trecho em que percebe-se a impossibilidade de qualquer outro enfoque de ensino e estudo da linguagem.
Outro exemplo de modalização, desta vez, pragmática pode ser observado no trecho abaixo em que as autoras, valendo-se de uma expectativa direcionada aos possíveis leitores e usuários do referido livro, ressaltam as ações esperadas pelos docentes em sala de aula:

Espera-se, portanto, que, ao preparar suas aulas, os professores sejam capazes de contribuir com exemplos semelhantes, que tornam o aprendizado da Língua Portuguesa mais significativo para os alunos.

Nesse trecho, há a construção de uma imagem de superioridade por parte dos enunciadores, uma vez que a capacidade dos professores é assinalada apenas como uma possibilidade, tendo do livro com referencial para a construção dos exemplos. Em outros termos, o modelo de aula, de atividades e de textos propostos pelos enunciadores são modelos a serem seguidos com a finalidade de garantir sucesso na aprendizagem do conteúdo.
Ao serem utilizados modalizadores e, como nas passagens abaixo, observa-se como esses reforçam o ethos das autoras que por meio desses buscam legitimar suas asserções no mundo social:

(...) é necessário que as discussões gramaticais tenham sempre por base um quadro teórico no âmbito do qual a linguagem seja entendida como uma atividade que modifica e constitui os interlocutores, e que é por eles constantemente modificada e manipulada.

 (...) é importante, ainda, que a correção dos textos se faça com base em parâmetros objetivos, de conhecimento também dos alunos, de modo a possibilitar a identificação dos problemas que exigem maior atenção.

(...) torna-se imprescindível dispor também dos conceitos de contexto e interlocução, que variam de acordo com o tipo de texto a ser produzido.


Dessa forma, os sujeitos enunciadores se posicionam não só como pessoas mais experientes, mas também como sujeitos a serem seguidos. Em outros termos, eles se colocam como seres capazes de dizerem o que é necessário, importante e/ou imprescindível para um bom aprendizado de Língua Portuguesa.
  
Considerações finais

            Numa abordagem sociointeracionista, objetivou-se analisar e descrever como as ações humanas e, por sua vez, linguageiras se constituem socialmente e como ocorre a interação entre os sujeitos. Através da identificação e da análise de mecanismos enunciativos e de diferentes aspectos como a distribuição de vozes e a definição de modalizações, tentamos demonstrar como se dá a atribuição de sentidos ao texto e a responsabilidade aos ditos e não-ditos no/do enunciado.
Dadas as reflexões acima, observa-se que o uso de modalizações no texto em questão pressupõe um gesto de configuração discursiva, uma vez que estabelece a coerência pragmática do texto e, ao mesmo tempo, orienta o destinatário na interpretação dos conteúdos tematizados.
No texto analisado, tal configuração tem como objetivo final convencer docentes a utilizarem determinado material e, consequentemente, orientar o agir desses profissionais na perspectiva pedagógica construída pelas autoras do texto.
Por meio de vozes textuais, as autoras (sujeitos enunciadores) demarcaram seu posicionamento tanto enunciativo quanto identitário. Tal fato proporcionou a edificação de um ethos positivo, respeitável e com experiência suficiente para dizer o que se deve ou não fazer em sala de aula e, dessa forma, ser capaz de prescrever o agir docente.  


Referências

AMOSSY, Ruth. Da noção retórica de ethos à análise do discurso. In: AMOSSY, Ruth (org.) Imagens de si no discurso. A construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2008.
AUCHLIN, Antoine. Ethos e experiência do discurso: algumas observações. In: MARI, Hugo; MACHADO, Ida Lúcia; MELLO, Renato de. (orgs.). Análise do discurso: fundamentos e práticas. Belo Horizonte: Núcleo de Análise do Discursoo, Fale/UFMG, 2001.
BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de linguagem, textos e discursos. Por um interacionismo sóciodiscursivo. Trad. Anna Rachel Machado e Péricles Cunha, São Paulo, Educ, 1999.
DUCROT, Oswald. Le dire et le dit. Paris: Minuit. 1984.
FERREIRA. Geraldo G. O trabalho docente representado em textos prescritivos: uma análise dos conteúdos básicos comuns de língua estrangeira do estado de Minas Gerais. 2011. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada). Universidade de Taubaté, Taubaté, 2011.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto
Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
HARBERMAS, J. Teoría de la acción comunicativa. Racionalidad de la acción y racionalización social. Tomo I. Madrid: Taurus, 1987.

MACHADO, Anna Rachel. (Org.) O ensino como trabalho: uma abordagem discursiva. Londrina: Eduel, 2004.

MAINGUENEAU, Dominique. Ethos, cenografia, incorporação. In: AMOSSY, Ruth (org.) Imagens de si no discurso. A construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2008.
MORATO, E. O interacionismo no campo linguístico. In: MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Org.). Introdução à Linguística: fundamentos epstemológicos . São Paulo: Cortez, 2001, v.3. p.311-351.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1999.